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O Paradigma da Forma Os Mabunda

Exposição Colectiva - Gonçalo Mabunda, Santos Mabunda, Rodrigo Mabunda

02.06.21 - 30.06.21

A fórmula Mabunda

Um dia desses, no árduo conforto da 1834, os irmãos Mabunda reinventaram o acto, criando este O paradigma da forma. Trancados horas a fio, com o silêncio a servir de pretexto e protesto, Rodrigo, Santos e Gonçalo, quais três mosqueteiros talhados de outras linguagens, entregaram-se à expressão plural, agora apresentada à Fundação Fernando Leite Couto. A mostra é colectiva. Por isso, as peças resumem procedimentos diferentes, ora instigando a percepção do deus das pequenas coisas, como diria a Roy, ora preenchendo o campo visual de narrativas por contar.  

O paradigma da forma é um conjunto de ferramentas diminutas, no entanto, a exaltarem-se à medida que linhas invisíveis se unem a favor da inteligibilidade inalienável. Há nisso cruzamentos: estéticos, axiológicos e semiológicos, afinal a arte Mabunda atravessa fronteiras contemporâneas para construir a diversidade na singularidade. Talvez resulte dessa caminhada por contextos históricos a redefinição de marcas barrocas alicerçadas a um sentido ecológico, claro está, implicado à utilização de materiais que constituem elementos identitários.   

Através deste O paradigma da forma, com efeito, os Mabunda vão buscar à precisão da técnica (desenho, pintura e escultura), a representação vivencial que, de outro modo, não faria sentido.   

José dos Remédios 

Notícia

Alguém terá dito que há exposições que valem tanto pelas perguntas que nos colocam como por aquilo que oferecem ao olhar. O PARADIGMA DA FORMA dos irmãos Gonçalo, Santos e Rodrigo Mabunda quer ter as duas valências. A exposição será inaugurada no dia 02 de Junho, às 18.00 horas, na Galeria da Fundação Fernando Leite Couto.

 A trabalharem em estruturas, técnicas distintas entre si, os artistas reflectem e questionam o status quo através das figuras e ícones que exploram. Nesta mostra encontramos a pintura de esferográfica sob cartão (Rodrigo), a mistura de colagem e desenho (Santos) e escultura (Gonçalo).

Rodrigo está a desenvolver uma técnica peculiar que na exposição Os Mabundas, no Camões em 2019, se aproximava dos azulejos portugueses. Sob o cartão, o artista distribui infinitos desenhos minúsculos, palavras, que vistos a lupa revelam o humor das circunstâncias de penúria que pesam nos ombros de uma sociedade que caminha na corda bamba a equilibrar a sua precariedade.

No novo rumo que Rodrigo traça neste O PARADIGMA DA FORMA, entre os milimétricos desenhos, surgem formas maiores que ganham o contorno de corpos, edifícios entre as margens dos pontos que o artista deixa em branco ou castanho, dependendo da cor do papelão/cartão no centro da composição.

A parte interior de Caixas de Red Label da John Walker (as telas de Rodrigo) dão espaço a reflexões, muitas vezes satíricas, sobre a realidade que nos rodeia e os seus dilemas.

Gonçalo Mabunda, por sua vez, reactualiza o significado das armas não com isso aniquilando os sentidos primeiros destas: a morte e o poder. Mas os rostos e corpos caricaturados, crivados de bala podem ser uma metáfora para a condição de precariedade, da vida por um fio.

Uma pergunta natural, ao olhar para as obras pode ocorrer: não são as dificuldades quotidianas – o chapa deficitário, o agente da polícia ou do hospital ou da conservatória ou das alfândegas, entre outros “ous” possíveis que materializam a corrupção – outras formas de nos colocar uma Kalashinikov AK-47 com o cano apontado ao nosso rosto?

A ser neste rumo, temos as obras de Gonçalo Mabunda ao serviço do questionamento da necropolítica (?) ao transformar as armas em poesia, em arte, disponível para o sensível (?).

Um dos marcos desta exposição é o uso escultural de capacetes militares crivados de balas a caricaturar rostos com a boca aberta, a zona do cérebro aberta ou então a fazer o estomago da escultura de um Cristo com laço vermelho no peito – a ironizar os pastores que actualmente proliferam na sociedade.

Outra novidade de O PARADIGMA DA FORMA está no uso por Gonçalo Mabunda de materiais de pulverização contra a malária, desde as roupas, as botas, as viseiras e as mochilas bomba de pulverizador.

Esta colectiva conta ainda com Santos, que trabalha na mistura entre o desenho e colagem, numa conjugação de cores que para lá da estética busca a poética no quotidiano, a reflectir sobre a pandemia, sobre a vida nos bairros, os conteúdos noticiosos da televisão e outras questões que não se esgotam.

Com obras maiores que a exposição “OS Mabundas”, no Camões em 2019, Santos quer revelar os nossos pecados, as mazelas do sistema e certas incoerências numa catarse a volta desse nosso hábito de nos silenciarmos sobre os nossos sofrimentos.

Leonel Matusse Jr.

Biografia 

Gonçalo Mabunda

Nascido a 1 de Janeiro de 1975, em Maputo, Moçambique.

Em 1992, Gonçalo Mabunda começou a trabalhar na Associação Núcleo de Arte, em Maputo, como assistente de galeria e, mais tarde, como galerista. Em 1995 Gonçalo participou do workshop Ujamaa IV como assistente do artista sul-africano Andries Botha e em 1996 participou num curso de metal e escultura de bronze durante 3 meses no Tecknikon de Natal na África do Sul. Desde 1997, Mabunda trabalha em período integral como artista. 

A maioria de suas esculturas são feitas das armas desactivadas que foram armazenadas e escondidas durante a longa guerra civil que dividiu Moçambique. Entre outras peças, Gonçalo trabalhou alguns anos, no design da “Cadeira do Chefe” inspirado pela arte africana étnico tradicional. A cadeira é igualmente critica os governos africanos actuais que frequentemente e tragicamente manipulam a violência armada como uma maneira de reforçar seu poder. 

Hoje a sua arte está representada em quase todo o mundo.  Participou em workshops e em inúmeras exposições individuais e colectivas, passou por Galerias, Feiras de Arte e cidades, nomeadamente, Bienal de Veneza, Itália, Museu do Brooklyn, EUA, Museu de Arte de Seul, Coreia do Sul, Museu Kunst Palast, Dusseldorf, Hayward Gallery, Londres e Centre Pompidou, Paris, em Tóquio no Japão, entre outros.

Gonçalo Mabunda é um nome reconhecido da Arte Contemporânea. 

Santos Mabunda 

Nascido em 1985 em Maputo, Moçambique.

Formado em têxteis pela Escola Nacional de Artes Visuais e em Electricidade Industrial pelo Centro de Formação Metalomecânica (2001), expôe desde 2005.

Santos Mabunda tem exibido o seu trabalho sobretudo em Moçambique onde realizou diversas exposições colectivas.

Os seus trabalhos têm vindo a evoluir de um desenho monocromático para trabalhos que, embora utilizem a cor, mantêm a mesma sobriedade das suas obras iniciais, assumindo as colagens nas suas criações mais recentes.

A criatividade dos seus desenhos a caneta sobre cartão, manifesta-se nos detalhes das figuras e das suas histórias que lhes estão implícitas e explicitas. 

A fantasia decorativa das colagens abstrato-geométrica, enriquece os desenhos transmitem-lhes originalidade.  
 

Rodrigo Mabunda

Rodrigues Mabunda de nome artistico Rodrigo Mabunda, é um artista autodidata, nascido em 1985 em Maputo. Começa a desenhar em 2015 num contexto peculiar e desinteressado.

Rodrigo fazia limpeza numa loja de produtos electrónico, e como forma de preencher os tempos livres enquanto trabalhava, e para não apanhar sono, ele começa a desenhar em folhas A4. As pessoas que viram os seus primeiros desenhos aconselharam-lhe logo a trabalhar com papel mais resistente. Foi então que ele começa a olhar a volta e vê as caixas vazias de laptop. Nesse momento encontra neste suporte um espaço para expressar a sua criatividade. Encorajado pelo seu irmão (o artista Gonçalo Mabunda), Rodrigo continuou a explorar a sua criatividade fazendo reciclagem de caixas de embalagem de diversos produtos que no passado tinha de deitar fora na sua prática profissional na loja.

Rodrigo considera que o que lhe levou a ser artistas foram as caixas, pois hoje em cada caixa ele vê um potencial. Rodrigo considera-se um sonhador de rua porque hoje ele adopta as caixas como se fossem seus filhos.